Debate sobre literatura e racismo estrutural

Primeiro negro eleito patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, em 2020, e autor de vários livros que abordam a temática do racismo estrutural, Jeferson Tenório foi o palestrante do mais recente evento promovido pelo Departamento de Direitos Humanos da APERGS. O escritor ministrou a palestra “Literatura e raça: o racismo estrutural e sua representação na literatura”, na última sexta-feira (08).

“Falar de literatura para tocar em um assunto tão difícil no Brasil é importante. A arte tem esse modo de nos tocar de outra forma, talvez mais profunda, de nos sensibilizar para entender por que estas coisas ainda continuam acontecendo mesmo com tanta discussão e conhecimento que a gente tem sobre o assunto. A literatura nos ajuda a refletir sobre essas questões. No entanto, os livros e a literatura têm suas limitações. Tratar o racismo estrutural através da literatura não significa que ela tenha um compromisso de apresentar um manual de como acabar com o racismo estrutural”, disse Tenório na abertura do evento.
 
Tenório falou da ausência de personagens negros e de autores negros que foram apagados na história da literatura. “Se o autor não diz qual a cor do personagem, nós somos levados a pensar que eles são brancos. Isso acontece justamente por que existe essa naturalização dos personagens brancos como algo universal”, complementou o escritor.

Consagrado como uma das grandes vozes da literatura brasileira contemporânea, Tenório é colunista de GZH e autor dos livros Estela sem Deus e O Avesso da Pele. Na obra O Beijo na Parede (eleito o livro do ano pela Associação Gaúcha de Escritores), o autor também aborda tanto o tema do racismo estrutural como a desigualdade social, a violência contra a mulher, a depressão e os direitos da criança. Nascido no Rio de Janeiro e radicado em Porto Alegre, Tenório é doutorando em teoria literária pela PUCRS. Teve textos adaptados para o teatro e contos traduzidos para o inglês e o espanhol.


Membro do Departamento de Assuntos Institucionais, Legislativos e Jurídicos da APERGS e integrante do Conselho Superior da Procuradoria-Geral do Estado do Rio Grande do Sul (PGE-RS), o Procurador do Estado Vinícius Cerqueira foi o debatedor da atividade.

“É notável a ausência da população negra em cargos de lideranças, mesmo sabendo que essa falta de representativa de ocupação de espaços é cíclica e acaba, de certa maneira, naturalizando a ideia de que esses espaços não pertencem aos negros. Em certa medida, desestimula as novas gerações a buscarem ocupar aqueles espaços, ou dificultam que a pessoa se engaje e tenha ali no horizonte de que é possível chegar naquele destino final almejado. Dialogar sobre isso constantemente é uma forma de quebrar esse racismo estrutural”, disse Cerqueira.

Coordenadora do Departamento de Direitos Humanos da APERGS, a Procuradora Flávia Reis destacou que “a arte comunica de uma forma extraordinária, nos proporcionando um constante resgate da nossa consciência ética, em tudo oposta a uma visão racista”.

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