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Associação dos Procuradores do Estado do Rio Grande do Sul

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Artigo – O racismo e seus símbolos

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Por Marcelo Ferreira Costa, procurador do Estado e diretor de Direitos Humanos da APERGS

Os símbolos são formas perenes e eficazes de comunicação. Não por acaso, antigas civilizações valeram-se de hieróglifos como forma de se comunicar. Hoje, os emojis falam mais do que muitas palavras em nossos smartphones. Não por acaso, racistas e supremacistas também se valem dessa linguagem, como mostra a história e a atualidade. Na época da Segunda Guerra, a cruz suástica e o braço ao alto e estendido para frente eram um resumo da expressão nazista.

Mesma coisa se vê hoje entre os grupos neonazistas, que compartilham símbolos próprios pelos quais os indivíduos desse grupo odioso se identificam. Nos Estados Unidos, isso ficou mais claro nos últimos anos, com a lamentável ascensão dos extremistas. O desenho “Pepe The Frog”, a letra Q (da teoria conspiracionista QAnon) e até o então inocente copo de leite foram adotados por eles.

Objetivo semelhante tem o gesto de juntar o polegar ao indicador, formando as letras WP, de “white power” (“poder branco”). Símbolo usado em fóruns de internet, pelo terrorista Brenton Tarrant, autor de um massacre na Nova Zelândia, e pelos invasores do Capitólio. E, lamentavelmente, por um destacado representante do governo brasileiro. Embora tenha justificado que “ajeitava a lapela do casaco”, o mesmo já se utilizou de outros símbolos de igual estirpe.

Alguns dirão que insurgir-se contra tais gestos será “vitimismo”, como se apenas a linguagem verbal expressasse preconceito. Ora, não é somente quando alguém ofende um cidadão negro, em alto e bom som, que estará sendo racista. A simbologia é parte desse código imoral que julga pretos como inferiores. E ao tolerar tais símbolos, estaremos dando carta branca para que outros o repitam — e sejam cada vez mais explícitos.

O racismo é uma doença, uma ameaça à coletividade e à democracia. E, como tal, deve ser extirpado de nosso cotidiano. Sejamos antirracistas não apenas contra as palavras, mas também contra os símbolos do ódio. Ao ignorarmos os sinais, deixamos que o preconceito se entranhe e se fortaleça. Não permita, não aceite. Perceba, repudie e denuncie. Só assim seremos verdadeiramente um país que respeita sua diversidade e seus indivíduos.

Texto publicado no site Brasil de Fato RS, em 13 de abril de 2021