Artigo: O teletrabalho veio para ficar

Elisa Berton Eidt*

Passado mais de um ano e meio do começo da pandemia, ainda estamos assimilando e digerindo vários desdobramentos das transformações em nossa sociedade. Do cenário macroeconômico à esfera das relações pessoais de cada indivíduo, já vislumbramos uma série de mudanças que adiantam um “pós-pandemia” — ou seja, adaptações a uma nova realidade que emergiu a partir de então.

Neste contexto está inserido o ambiente e o formato de trabalho. A urgente necessidade de isolamento da população, aliada à continuidade da atividade produtiva, levaram os setores público e privado para os meios digitais. O home office se tornou rotina, com um novo espaço de trabalho em casa, chamadas on-line, reuniões por videoconferência — e a preocupação em não misturar os afazeres domésticos e o lazer às horas laborativas.

O momento atual, felizmente, possibilita o retorno ao trabalho presencial, respeitadas medidas como distanciamento e uso de máscara para evitar novos contágios. No entanto, a forma de trabalhar não pode mais ser encarada com as mesmas lentes do momento pré-pandemia. Essa mudança generalizada — e um pouco “forçada” — descortinou um cenário até então não vislumbrado por uma parcela dos trabalhadores da iniciativa privada e do setor público.

Com efeito, percebeu-se um melhor manejo do tempo e consequente equilíbrio do trabalho com a vida pessoal, com pequenas flexibilizações ao longo da jornada para atividades que trazem bem-estar, como fazer um café ou admirar o por do sol. Ao contrário do que se cogitou inicialmente, a produtividade aumentou, na medida em que o estresse do deslocamento foi eliminado — além da inevitável distração que ocorre em ambientes com maior circulação de pessoas.

Portanto, ficou evidente, de maneira inquestionável, que o teletrabalho é mais uma possibilidade de exercício das atividades laborais, a depender do contexto em que se insere o funcionário e sua função. E, ao contrário do que se apregoava, não é um subterfúgio para não se dedicar adequadamente ao serviço.

Uma transformação válida, também, para o setor público, que antes da pandemia já anunciava a capacidade de adaptação e de inovação de seus servidores, ante a crescente demanda por agilidade, eficiência e qualidade nas entregas e respostas para novos problemas. Exemplo disso está no Poder Judiciário, no qual o processo eletrônico contribuiu para um novo formato de interação com a sociedade, predominantemente digital.

Quando se trata de atividade pública, o que é essencial não se negocia: qualidade. Se há possibilidade de prestá-lo remotamente, essa modalidade deve ser avaliada de forma racional. Não se trata de um formato que visa unicamente atender interesses pessoais do funcionário. É uma equação em que todos ganham: trabalhadores felizes produzem mais e têm maior qualidade de vida. Há redução de gastos para as estruturas estatais e maior eficiência. E a população recebe serviços de qualidade, atendendo às suas necessidades. O teletrabalho veio para ficar — e será um benefício para toda a sociedade.

*Procuradora do Estado do Rio Grande do Sul e Diretora do Departamento de Teletrabalho da Associação dos Procuradores do Estado do Rio Grande do Sul (APERGS)