O hino e suas verdades inconvenientes

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Marcelo Ferreira Costa – Procurador do Estado, Diretor de Direitos Humanos da APERGS

Causou ranger de dentes a manifestação dos Vereadores negros empossados na Câmara Municipal de Porto Alegre ao protestarem e não reverenciar o Hino Riograndense. O que mais foi incomodada no protesto foi a visão monocular que empresta “perfeição aos seus símbolos, tradições que vêm de tempos em que eram ideias legítimas, mas, hoje, insustentáveis. Na época em que o Hino Riograndense foi escrito, o negro era coisificado, mera propriedade de alguém. Naquele contexto, entender que a “coisa” serve ao dono, e, por isso, não tinha virtudes, era “compreensível”. Porém, a se letra do “afrodescendente” Francisco Pinto da Fontoura, se fosse composta hoje, faria clara apologia ao racismo. São passados mais de cento e cinquenta anos, e não há nada que justifique tanto ranger de dentes por estar sendo desnudada uma expressão racista dentro da manifestação cívico-cultural. Os Vereadores, ao protestarem contra a ideia contida nos versos, atacaram um anacronismo, contrário à ideia de cidadania que se pretende moderna. Cabe, aqui, um questionamento: quantos refletiram sobre a mensagem contida acerca das “virtudes ausentes”?

Se alguém meditou, buscou ter um pingo de empatia com aqueles que veem ali expressões racistas, conseguiu atingir a compreensão do que seja ser tachado de integrante um “povo sem virtude”, compreenderá o protesto. Se meditou, compreendeu, mas não entendeu a importância e legitimidade do protesto, ou precisa compreender o que seja “racismo estrutural” e o mal que causa à sociedade brasileira, ou acha que está tudo lindo, que se deve continuar cantando, por que “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”. Neste caso, nem preciso comentar.

A sociedade brasileira é multifacetada. Pelo fato de o país investir pouquíssimo em educação e entender, ainda, que “elite” é quem tem dinheiro e poder, e não quem tenha saber e visão de Estado, vige a ideia de que quem não está no poder, não teve “virtudes” para ascender. Não é uma cruzada contra um símbolo, mas sim contra ideias que estruturam uma sociedade que ainda vê o negro como “povo sem virtude”, o que se constata ao se confrontar os indicadores sócioeconômicos do país. É o imaginário de um povo que dá o seu norte. Os versos, centro da polêmica, buscavam o quê? Animalizar determinada etnia. Sei, não foram os gaúchos de hoje que escreveram os versos, mas são os de hoje que cantam! Estes, têm a missão de construir a sociedade que viveremos logo ali, no futuro – e o futuro começa imediatamente, ou, como diria Emicida, “É TUDO PRA ONTEM”! Se vivemos em um país que fantasia ser uma nação, devemos construí-lo inclusivo, livre, virtuoso. Não se pode mais ficar postergando discussões e varrendo as sujeiras da sociedade para debaixo do tapete, como se vivêssemos no “Mundo de Nárnia”, onde todos são felizes, respeitados e tratados com igualdade. Para finalizar, os Vereadores protestaram por si, e por todos os negros e antirracistas que representam. A democracia representativa, gostem ou não, é assim. Ser escravizado não é uma questão de virtude. É fruto da violência, da ganância, fatores que, de tão repetidos em nosso Brasil, insistem em permanecer intactos, protegidos por “tradições”. Por isto, questione! Seja antirracista, também!