30/Jul/2013
Artigo: QUANDO SE TEM MUITOS MOTIVOS PARA PROTESTAR (Fernanda Tonetto)

QUANDO SE TEM MUITOS MOTIVOS PARA PROTESTAR
Fernanda Tonetto*

A grande maioria dos brasileiros, mesmo sem saber, convive com as consequências da corrupção todos os dias. Felizmente ou infelizmente, pelo trabalho que desempenhamos na Procuradoria Disciplinar e de Probidade Administrativa da PGE, todos os colegas vemos muito de perto a corrupção entranhada nos meandros das repartições públicas e dia após dia somos forçados a concluir que a luta contra ela é inglória e desigual.

Mas não é porque a batalha é difícil que vamos desistir. Particularmente, acho que aos poucos essa cultura da improbidade está sendo desvelada, essa herança maldita que nos trouxeram os colonizadores e da qual ainda não nos livramos. Talvez não tenhamos nos esforçado o suficiente.

Não nos livramos ainda, no inconsciente coletivo, da ideia de que se todos levam vantagem, não tem mal algum em levar uma vantagenzinha também. É por isso que a corrupção está em todos os lugares onde existe dinheiro público.

Esses protestos que estão ocorrendo Brasil afora são totalmente compreensíveis (embora devam ser pacíficos, para que quem tem a razão não perca a razão), pois as pessoas estão cansadas. Quando se tem muitos motivos para protestar, talvez nem saibamos porque protestamos. Os motivos, no entanto, persistem.

Mas mais profundamente do que isso, acho que o protesto deve começar com uma atitude interior, de verdadeira mudança de concepção e de postura. Uma mudança de comportamento, sem abrir exceções. Um novo paradigma talvez.

Comecemos não admitindo nenhum benefício ilegítimo, como ganhar seguro-desemprego sem ter sido despedido (os velhos e vergonhosos acordos da justiça do trabalho...), sem usar o telefone da repartição pública onde trabalhamos para fins particulares, sem furar a fila, sem desrespeitar os direitos de dignidade humana, principalmente daqueles que, sozinhos, não sabem se defender, e, acima de tudo, sem confundir o público com o privado. É o primeiro passo.

É claro que receber uma copa do mundo deveria ser motivo de alegria para nós brasileiros, afinal, somos “o país do futebol”. Seria maravilhoso, sim, se não tivéssemos problemas mais importantes para resolver. Que tal usar todo o orçamento das obras da copa (sem licitação, por causa da urgência, claro!) para aumentar o salário dos professores? Que tal não ir aos jogos para não dar mais dinheiro a quem já tem bastante e doar para alguma instituição séria que faça alguma coisa contra a pobreza no mundo? Que tal, enfim, sairmos definitivamente das priscas eras do pão e circo?

Será que as pessoas sabem que uma das maiores pressões feitas às cidades que vão receber os jogos da copa está sendo feita por uma multinacional fabricante de bebidas? Alguém já parou de comprar e consumir esses produtos? Eu já, o que aliás faz muito bem para a saúde.

Para terminar, já que estamos falando, em última análise, de direitos humanos e mudança de postura: os maiores opressores dos direitos da humanidade são os Estados Unidos da América. Aqueles que denunciam os absurdos cometidos contra populações civis, as espionagens, as intromissões indevidas (falo de Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden), pra mim verdadeiros heróis, são julgados, fugitivos ou exilados. Quando digo que não me submeto ao vexame de pedir um visto àquele país, que pra mim soa como um pedido de esmola (como assim ter que responder se já fui terrorista ou traficante de pessoas?), as pessoas me chamam de tola e dizem que eles, os americanos, estão se lixando com a minha postura. Mas eu pergunto: e se todos fizessem isso?

Se continuarmos pensando que a mudança de um não vai mudar o mundo, certamente não mudaremos nada. Mas se passarmos a pensar que a mudança de um é apenas o começo da mudança do mundo, bom, aí sim, estamos realmente começando. E creio que está mais do que na hora de começar.


*Procuradora do Estado do Rio Grande do Sul


Jornal Correio do Povo | 30 de Julho de 2013